Filhos bem sucedidos abandonam mãe com Alzheimer de 87 anos em Viana-ES
Assistência SocialESPÍRITO SANTO

Filhos bem sucedidos abandonam mãe com Alzheimer de 87 anos em Viana-ES

Aos 87 anos e com diagnóstico de Alzheimer avançado, Dona Therezinha Ramos, de Viana, no Espírito Santo, não consegue mais se alimentar, vestir ou reconhecer pessoas próximas. Dos sete filhos que teve, seis estão vivos e têm carreira e renda estável. Mas apenas uma filha, jornalista, assumiu sozinha os cuidados e os custos do tratamento da mãe. Os demais discutem internar Therezinha em instituição de longa permanência sem se comprometer com despesas ou visitas.

Uma vida dedicada ao cuidado da família
Filha de desembargador e criada em família tradicional, Therezinha dedicou décadas ao cuidado de terceiros. Trabalhou sem remuneração formal na cozinha da casa de irmãs, ajudou com os cuidados dos sobrinhos e amparou a própria mãe até o fim da vida.

Após se separar do marido há mais de 50 anos, sem ter apoio financeiro,da família teve que entregar,os filhos homens, para ser criado pelo pai.
Com uma pensão dada ela pelo ex marido para cuidar das filhas mulheres, segundo relato da filha cuidadora.

“Eles esquecem que ela deu a vida por eles. Que trabalhou na cozinha dos próprios irmãos, que cuidou da mãe até o fim. Hoje dizem que ela não fez o suficiente, mas na época ninguém estendeu a mão para ela”, afirma a filha, que preferiu não ter o nome divulgado para proteger a mãe.

Sucesso profissional e omissão nos cuidados
Os seis filhos vivos de Therezinha têm formação superior. Entre eles há médicos, advogados, empresário e servidor público federal. Um reside nos Estados Unidos e outra é médica psiquiatra em São Paulo.

Apesar da condição financeira estável, nenhum dos seis contribui regularmente com as despesas da mãe.
O INSS ao qual Therezinha tem direito, no valor de um salário mínimo, está bloqueado há um ano. A família não tomou medidas para destravar o benefício nem para suprir a falta de recursos.

Gastos básicos como fraldas, medicamentos e alimentação especial geram conflito entre os irmãos, conforme relato da cuidadora.

“Para eles, gastar com ela é desperdício. Eles têm dinheiro, têm casa, têm viagens, têm tudo, mas acham que não devem nada a quem lhes deu a vida”, desabafa a filha responsável pelos cuidados.

Sobrecarga e proposta de internação
Desde que a doença se agravou, a filha jornalista assumiu integralmente a rotina de Therezinha: troca de fraldas, administração de remédios, alimentação e manejo das crises de confusão mental típicas da demência.

A sobrecarga física e emocional levou à reestruturação completa de sua vida pessoal e profissional. Sem apoio dos irmãos, a cuidadora arca com todos os custos.

Agora, os demais filhos propõem a internação da mãe em instituição de longa permanência, pública ou privada, sem assumir os custos nem o acompanhamento do tratamento.

“Eles querem colocar ela em qualquer lugar e continuar a vida como se nada tivesse acontecido. Quem tem Alzheimer precisa de vínculo, de carinho, de presença — coisas que nenhum deles está disposto a dar. Ela não merece ser jogada fora como um objeto”, afirma.

Abandono de idoso é crime no Brasil
O Estatuto do Idoso, em seu artigo 99, prevê pena de detenção para quem abandona pessoa idosa em instituição de longa permanência ou não presta assistência quando deveria fazê-lo.

O Ministério Público tem atuação específica na defesa dos direitos da pessoa idosa e pode ser acionado para responsabilizar familiares omissos.

Tentativa de contato
A reportagem tentou contato por telefone e mensagem com os seis filhos de Therezinha, irmãos e sobrinhos citados na matéria, para apresentar a versão deles sobre os fatos. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

O alerta da história
Therezinha não pede luxo nem recursos além do básico. Pede cuidado, dignidade e presença daqueles que ela criou.

A história escancara um problema crescente no Brasil: o abandono afetivo e material de idosos por familiares que têm condições de ajudar. O caso de Therezinha levanta uma pergunta que não pode ser ignorada: o que significa ser família se não para estar presente nos momentos mais difíceis?

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Maryhanderson Ramos Ovil
Jornalista e redatora, publicitária

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