Fome é maior entre famílias chefiadas por mulheres negras, reforça pesquisa
DIREITOS HUMANOS

Fome é maior entre famílias chefiadas por mulheres negras, reforça pesquisa

Novos dados de inquérito nacional explicitam que insegurança alimentar é maior entre pessoas negras mesmo quando a escolaridade é semelhante à de pessoas brancas

Fome é maior entre famílias chefiadas por mulheres negras, reforça pesquisa
26.06.23 | Por Mariana Costa
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Novos dados de inquérito nacional explicitam que insegurança alimentar é maior entre pessoas negras mesmo quando a escolaridade é semelhante à de pessoas brancas
A fome é mais intensa em famílias cujos responsáveis se autodeclaram pretos e pardos. E o quadro é substancialmente pior naquelas em que as mulheres negras são chefes de família, segundo novos dados divulgados nesta segunda-feira (26) pelo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Vigisan).

Quatro a cada 10 famílias brasileiras chefiadas por mulheres negras no Brasil convivem com insegurança alimentar, de moderada a grave. Duas a cada dez famílias com essa configuração enfrentam privação de alimentos e fome.

Pelo menos 6 em cada 10 lares chefiados por pessoas de cor autodeclarada parda ou preta conviviam com algum nível de insegurança alimentar no momento em que os dados foram coletados, entre novembro de 2021 e abril de 2022. O contrário também se verifica: nas famílias chefiadas por homens brancos os indicadores de segurança alimentar são maiores.

Percentual de domicílios segundo condição de Segurança Alimentar (SA) e níveis de Insegurança Alimentar (IA), por sexo e raça/cor autodeclarada da pessoa de referência

Informação da pessoa de referência do domicílio • As diferenças nas prevalências de SA/IA foram significativas entre as categorias de raça/cor autodeclaradas para mulheres (p-valor < 0,001) e homens (p-valor < 0,001).

Os novos dados indicam a persistência de desigualdades e reforçam as evidências de que gênero e raça são determinantes no acesso a uma alimentação adequada entre esses grupos, que representam a maioria da população brasileira.

A pesquisa foi conduzida pela Rede Penssan, um pool de pesquisadores em segurança alimentar que revelou a existência de 33 milhões de brasileiros que passam fome. “A grande novidade é a intersecção desses dados. A série não tinha feito nenhuma análise aplicando o recorte de sexo e de raça juntos. Agora a gente tem informações sobre mulher branca, mulher negra, homem branco e homem e negro”, explica a pesquisadora da Rede Penssan, Veruska Prado.

Os autores trabalharam sobre dados coletados em entrevistas feitas em 12.745 domicílios, distribuídos em 577 municípios, localizados em áreas urbanas e rurais das cinco macrorregiões do Brasil.

Não foram consideradas informações associadas a raça e cor da pele amarela e indígena porque não houve dados suficientes para uma amostra representativa dessas populações.

Maior escolaridade não reduz assimetria
As assimetrias de gênero e de raça se repetem mesmo quando a escolaridade é mais alta. Mais de um terço (33%) dos lares chefiados por mulheres negras com 8 ou mais anos de estudo enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave. O percentual entre famílias chefiadas por homens negros com a mesma escolaridade é um pouco menor: 21,3%. Entre mulheres brancas, 17,8%. Nos casos em que um homem branco é o responsável, o percentual despenca para 9,8%.

Em contrapartida, os lares chefiados por homens brancos apresentaram prevalência de segurança alimentar – ou seja, há alimentos suficientes para todos – quase duas vezes maior (64,6%) do que a encontrada nas famílias em que mulheres negras são a referência (36,2%).
Apesar das diferenças desfavoráveis no acesso aos alimentos entre a população feminina negra, ser mulher responsável pelo domicílio, independentemente da cor, representa mais dificuldade em ter acesso a uma alimentação adequada.

Ainda com o recorte de escolaridade, entre os domicílios chefiados por mulheres que se autodeclaram brancas e têm menos de 8 anos de estudo, os indicadores de insegurança alimentar moderada alcançaram 18,1% das famílias, enquanto 20,8% enfrentam a fome.

Entre as mulheres negras nesta condição, os percentuais são um pouco mais altos: 22,3% e 28,4%, respectivamente.

“Os lares chefiados por mulheres vivem mais situações de insegurança alimentar, seja a preocupação quanto a ter o alimento num futuro próximo, ou quando ou efetivamente não têm o alimento para consumir. Ser mulher e ser mulher negra no Brasil piora muito essa situação”

Veruska Prado, professora da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Goiás

“Essa relação cai quando você compara o homem negro e a mulher branca, mas ela se mantém dentro da população negra. Os lares chefiados por homens negros têm menor percentual de insegurança alimentar. Porém, é um percentual ainda muito alto. Então isso foi algo que nos chamou muita atenção.”
Em que pese a redução da desigualdade de renda, as mulheres negras seguem isoladas na base da hierarquia social. A pesquisa destaca que elas apresentaram rendimento médio em 2021 (R$ 1.567) equivalente a 59,8% daquele observado em homens brancos (R$ 2.622). Em relação às mulheres brancas, o rendimento médio anual equivale a 77,2% daquele encontrado, no mesmo período, para os homens da mesma raça, segundo o IBGE. 

Lares com crianças de até 10 anos sofrem mais com a fome

A presença de crianças menores de 10 anos em casa também representa maior vulnerabilidade alimentar das famílias. A prevalência da fome é maior nos domicílios chefiados por mulheres negras, comparativamente aos demais (23,8%). A insegurança alimentar moderada também foi maior neste grupo (23,3%). 
Em contrapartida, o percentual de famílias nesta condição, em que mulheres negras são as responsáveis, que têm acesso a uma alimentação adequada é metade (21,3%) do observado em lares com crianças chefiados por homens brancos (52,5%). Entre mulheres brancas nesta condição, o percentual é de 39,5%. 
A pesquida indica ainda que em todas as categorias da situação de emprego/trabalho (informal/desemprego, trabalho formal ou autônomo), domicílios chefiados por mulheres negras apresentaram frequência maior de insegurança alimentar moderada e grave, comparada àqueles com responsáveis homens brancos ou negros e mulheres brancas.
Nos casos em que a pessoa responsável se encontrava desempregada ou em trabalho informal, foi encontrada prevalência mais alta de insegurança alimentar tanto em lares chefiados por pessoas brancas (61,8%) como negras (78,5%). 
A proporção de insegurança alimentar moderada e grave é maior naqueles em que pessoas pardas (IA grave: 49,3%) e pretas (52,3%) estavam na mesma posição. 

“Todos os indicadores sociais aplicados à realidade brasileira revelam profundas desigualdades de raça e de gênero. E no campo da alimentação isso também está refletido. Um estudo que faz a intersecção sob essa perspectiva permite aprofundar esse olhar e trazer elementos para a estruturação de políticas públicas que incidam melhor sobre essas desigualdades”, avalia Manu Justo, coordenadora do programa de Sistema Alimentares do Instituto Ibirapitanga, uma das organizações que apoiam a pesquisa. O Ibirapitanga é um dos financiadores regulares de O Joio e O Trigo.
“Esses dados também contribuem para o reconhecimento do racismo estrutural como um projeto ativo ainda no Brasil. E também o papel que o Estado e as elites políticas e econômicas brasileiras têm na perpetuação dessas desigualdades.”

O que é insegurança alimentar? 

Insegurança alimentar é quando existe incerteza em relação ao acesso aos alimentos necessários para uma alimentação saudável, um conceito criado pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia). Está dividido em 3 níveis de gravidade: 

• Leve: quando há incerteza quanto ao acesso a alimentos em um futuro próximo e/ou quando a qualidade da alimentação já está comprometida

• Moderada: quando a quantidade de alimentos é insuficiente para toda a família 

• Grave: quando há privação no consumo de alimentos e fome 

“A fome e a insegurança alimentar, de moderada a grave, principalmente, estão crescendo substancialmente no Brasil. A gente também teve o crescimento da obesidade, é um paradoxo. E por quê? Com o pouco dinheiro que têm, as pessoas muitas vezes são obrigadas a fazer escolhas que as levam a adquirir alimentos que não são tão favoráveis à manutenção da sua saúde”, analisa a pesquisadora Veruska Prado. “Quando a gente fala de combate à fome precisa vir junto a garantia de acesso à alimentação adequada e saudável, garantia de acesso à comida de verdade.”

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